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Investimentos
5 de junho de 2017

Prêmio de risco do mercado acionário acima da renda fixa

A volatilidade recente nos mercados traz inquietações e distorce a lógica dos investimentos. Superado o estresse, a queda na taxa de juro levará os investidores a analisar alternativas em busca de maior rentabilidade, pois os ganhos da renda fixa serão menores e a alocação para outras modalidades faz sentido.

 Se considerarmos as aplicações financeiras em títulos públicos federais com rentabilidade associada à taxa Selic, podemos afirmar que a renda fixa brasileira é uma das mais rentáveis do mundo. Contudo, a taxa Selic vem caindo e a pesquisa Focus divulgada pelo Banco Central vem apontando para outras reduções ao longo deste ano.

Caso esse cenário prevaleça, o investidor terá que abrir mão do conforto da renda fixa e correr riscos. A diversificação é sempre recomendável, mas se a decisão for por assumir mais risco de mercado, o mais indicado é direcionar para a bolsa, pois o mercado acionário é o que oferece a maior atratividade por razões bem claras: é bem organizado, possui liquidez e transparência comparativamente vantajosas.

A tese de investimento aqui pressupõe a existência de um adicional de rentabilidade em relação à renda fixa; essa contrapartida é denominada de prêmio de risco, uma das variáveis mais importantes em finanças. Podemos nos perguntar se é vantajoso investir em ações e se há prêmio de risco sobre a renda fixa no Brasil. Essa é uma questão que há muito permanece em discussão por estudiosos e profissionais. Vamos direcionar o debate para a integração do país no contexto global, aspecto essencial para compreendermos o prêmio de risco do mercado acionário.

Por razões justificadas, temos tendência a adotar uma visão do país fragilmente conectado ao mundo. As informações locais tendem a prevalecer, os eventos políticos e a conjuntura econômica praticamente não deixam espaço para refletirmos sobre a influência vinda de fora sobre a nossa bolsa. Essa percepção se agrava quando olhamos o passado ­ por exemplo, os últimos cinco anos ­ e verificamos que a rentabilidade média dos títulos públicos associados à Selic foi superior à do Ibovespa, o principal índice acionário do país.

Os últimos meses, contudo, têm oferecido um incrível sinal da integração do Brasil ao mercado financeiro global. De fevereiro de 2016 a abril de 2017, o Ibovespa subiu 62% e a renda fixa associada à taxa Selic rendeu 17%, revelando que projeções focadas para o componente interno falharam na medida em que o fundamento local não foi suficiente para justificar tamanho prêmio. Sob o aspecto técnico, uma das razões para que essa frustração tenha ocorrido se deve à aplicação automática de modelos válidos em países desenvolvidos, mas ainda precisando de comprovação em países emergentes e no Brasil, em particular.

Por outro lado, a visão sustentada pela globalização oferece uma explicação adequada para o movimento; aqui, o conceito de prêmio de risco é associado às variáveis precificadas pelos investidores globais, a renda fixa que mais influencia é a dos títulos do Tesouro americano. Esses conceitos são muito bem elaborados pelo professor da Universidade de Nova York Aswath Damodaran, dos quais nos valemos para os cálculos a seguir.

Em fevereiro de 2016, o prêmio de risco das ações brasileiras era estimado em 13,5% ao ano; em abril último, caiu para 9,0% ao ano, tudo isso em dólares e acima do rendimento dos títulos de dez anos do Tesouro americano, considerados livres de risco; essa queda automaticamente impulsionou o Ibovespa nesses meses. Os que acompanham o mercado internacional mais de perto sabem que a queda dos prêmios de risco tem sido generalizada, tem beneficiado os países emergentes e o Brasil; podemos imaginar como o ambiente interno estaria se o cenário internacional estivesse hostil e demandando prêmios de risco mais elevados, o estresse financeiro poderia ser muito grande por aqui, talvez a ideia de tempestade perfeita fosse aplicável.

Que conclusões se podem tirar sobre o prêmio de risco do nosso mercado acionário? A primeira e mais importante é que ele existe e é expressivo, como os números anteriores nos mostram; contudo, é preciso que seja estimado a partir da visão globalizada e usando variáveis externas.

A segunda conclusão é que varia ao longo do tempo e o seu efeito conduz o mercado acionário para o sentido oposto; por isso, entre dezembro de 2012 e janeiro de 2016, o Ibovespa se desvalorizou, porque o prêmio de risco subiu, enquanto a partir de fevereiro de 2016 o Ibovespa vem subindo porque o prêmio de risco vem caindo, conforme mencionado anteriormente.

Por fim, ao investidor local interessa obter rentabilidade e ganhos em nossa moeda. Nesse caso, podemos argumentar que a taxa Selic possui fraca causalidade com o comportamento do Ibovespa; sua queda atual não necessariamente significa que a bolsa vai subir, pois o prêmio de risco, quando convertido para reais, é uma variável aleatória decorrente de eventos econômicos originados lá fora.

Se o cenário externo continuar favorável e sustentar o ciclo que se iniciou em fevereiro de 2016, ganhos adicionais poderão ocorrer no nosso mercado acionário, mas é sempre bom lembrar que o contrário também é verdadeiro. Além do mais, é preciso que o estresse recente seja superado para que a lógica dos investimentos volte a prevalecer.

Jair Ribeiro é especialista em fundos de pensão da Fundação Eletrobrás de Seguridade Social (Eletros)

Fonte: Valor Econômico