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Previdência
3 de fevereiro de 2017

Especialista da ELETROS fala sobre como cenário externo influencia mercado acionário

Como o cenário externo influencia o mercado acionário

A valorização de 60% do Ibovespa nos 12 meses encerrados em janeiro surpreendeu tanto pela intensidade quanto por ter ocorrido em meio a uma conjuntura interna preocupante.

No último ano, a crise política e a deterioração econômica prevaleceram no noticiário, e foram motivos suficientes para que boa parte dos investidores se retraísse. Além do mais, os juros no país foram e continuam altos, mesmo após as quedas na taxa Selic, de modo que a rentabilidade da renda fixa permanece atrativa.  Nesse quadro, o chamado apetite para o risco esteve em baixa e a cautela predominou nas decisões.

Contudo, agora que a bolsa está em alta e os juros estão caindo, os investidores começam a pensar em trocar de posição e alocar mais capital em ações. Tanto para os que estão propensos a mudar quanto para os que já estão posicionados é importante entender um pouco mais como o cenário externo influencia o mercado acionário, e o movimento que ocorreu nos últimos meses é esclarecedor.

A alta recente do Ibovespa é decorrente de um fenômeno essencialmente de mercado, estreitamente relacionado ao ambiente externo. Vale a pena voltarmos a janeiro de 2016 para relembrar como começou.

Não é preciso analisar a situação econômica desde então, podemos relevar, por exemplo, o comportamento dos juros americanos ou do preço das matériasprimas, pois basta examinar a evolução do risco soberano medido pelo CDS (Credit Default Swap) de cinco anos, ainda pouco divulgado pela mídia não especializada.

Expresso em pontosbase, o CDS é um contrato derivativo de balcão com ampla negociação no mercado internacional, se assemelhando, na prática, a um seguro contra os chamados eventos de créditos, seja falta de pagamento ou outra violação contratual. Existe CDS para proteção contra inadimplemento de bancos, empresas e outros, mas, quando se refere a países, ganha a identificação de soberano; o risco soberano se tornou um indicador muito útil na gestão global de investimentos.

Ao CDS de prazo de cinco anos do Brasil denominaremos de risco Brasil é bom ressaltar que o governo brasileiro não possui qualquer tipo de responsabilidade nesses contratos privados. No final de janeiro de 2016, o CDS do Brasil era de 473 pontos base, caiu para 250 pontos base em janeiro último. Essa queda não se restringiu ao Brasil, outros países emergentes também experimentaram reduções expressivas. O CDS da Colômbia caiu de 283 para 153 pontos base; o da África do Sul caiu de 349 para 213 pontos base no mesmo período. A análise feita com bases em variações diárias mostra que há um grau considerável de dependência entre o CDS do Brasil e o dos países citados, além de outros não aqui relacionados.

Independentemente de quais sejam os fatores econômicos que os unem para um modelo matemático, isso não é relevante. A queda do CDS do Brasil pode ser explicada pelo movimento conjunto que se verificou no mercado internacional, para o qual o cenário interno teve pouca influência.

O que o Ibovespa tem a ver com isso? Muito. Sendo um fenômeno de mercado, o impacto da queda do risco Brasil foi imediato sobre o mercado acionário, do qual o Ibovespa é o principal índice. São variáveis muito interligadas, mas correlacionadas negativamente, reagem através de movimento inverso uma em relação à outra; quando o risco Brasil cai (ou sobe), o Ibovespa sobe (ou cai). O resultado da regressão linear indica, contudo, que não é na proporção de um para um.

A tabela resume o que aconteceu nos últimos 12 meses. Em janeiro de 2016, o risco Brasil era de 473 pontos base, enquanto o Ibovespa estava em 40.405 pontos. De lá para cá, o risco Brasil veio caindo, mesmo com a ocorrência de riscos importantes no exterior, como o Brexit e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos. O índice continuou caindo e fechou janeiro de 2017 em 250 pontosbase, uma queda acumulada de 47% no período. Simultaneamente, o Ibovespa foi subindo e depois de uma alta de mais de 7% no mês, fechou janeiro último em 64.671 pontos, acumulando uma valorização de 60% em 12 meses.

Sim, isso foi o que aconteceu no passado recente, mas o que poderíamos esperar para os próximos meses? A perspectiva mais favorável para a economia do país poderia dar novo impulso ao nosso mercado acionário? Um ambiente interno positivo é sempre bom para a bolsa, ninguém duvida disso, mas a influência externa deverá prevalecer; nesse caso, o risco Brasil continuará como variável-chave a ser monitorada.

Por mais desagradável que seja, se o cenário externo reverter e o risco Brasil começar a subir, o Ibovespa vai sentir. Obviamente, tudo dependerá da intensidade de uma eventual aversão ao risco no mercado global.

Por outro lado, se o cenário externo continuar positivo e reduzindo o risco soberano dos países emergentes, com o risco Brasil sincronizado ao movimento, o nosso mercado acionário seguirá se beneficiando do bom momento global e respondendo com mais valorização. Tanto para o cenário positivo quanto para o negativo, cabe uma mensagem final: quem olha para fora, desperta.

Jair Ribeiro é especialista ELETROS e autor do livro "Risco de Mercado dos Investimentos de Fundos de Pensão".

Fonte: Valor Econômico – 03 de fevereiro de 2017.