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Previdência
13 de janeiro de 2017

Especialista da ELETROS conta em artigo no Valor porque fundos não capturaram ganhos

Por que os fundos de pensão não capturaram ganhos de 2016

Há muito não víamos um ano tão bom para os investimentos como 2016. As aplicações consideradas de longo prazo deram verdadeiras alegrias, os principais índices da bolsa se valorizaram mais de 35%, as Notas do Tesouro Nacional com vencimento em 2050 registraram 38%, tudo isso muito acima da inflação de 6% no ano.

Em geral, a rentabilidade dos fundos de pensão não capturou esses ganhos extraordinários. Não que essas entidades de previdência complementar tenham apresentado um desempenho comprometedor; calculamos que, excluindo as de maior porte, a rentabilidade nominal média tenha sido de 15%, superando com folga o parâmetro básico representado pela taxa de juro atuarial de 12% no ano.

Qual seria a razão para o resultado de 2016 aquém do potencial? Nossa análise aponta para a gestão do risco de mercado. Compartilhamos da premissa de que a gestão compreensiva do risco de mercado seja a forma mais eficaz de enfrentar o risco financeiro da longevidade, objetivo cada vez mais difícil em nossa sociedade. A análise das políticas de investimento mostra que a gestão do risco de mercado da maioria das entidades tem sido conservadora e buscado neutralizar os efeitos negativos das oscilações dos últimos anos. O argumento que sustentamos é que reduzir a volatilidade de curto prazo das carteiras pode ocultar um grande risco de longo prazo associado à insuficiência de rentabilidade futura – nesse caso, o ônus poderia recair sobre os participantes e as patrocinadoras do plano.

 A principal evidência da cautela adotada está na alocação em renda variável. Excluindo os maiores fundos de pensão do país, estimamos que a alocação média em renda variável no final de 2015 estava em 5%, no menor nível da série histórica. Poder-se-ia justificar a discreta alocação tanto pelo rendimento negativo passado do mercado acionário quanto pelo desestimulante cenário interno, mas o fato é que poucos se beneficiaram da virada da bolsa em 2016. Além do mais, fica a pergunta do que fazer nos próximos anos, particularmente em 2017, depois de tamanha valorização, valeria a pena aumentar a alocação em ações?

A baixa alocação em renda variável resultou em alta participação em renda fixa – estimamos em 90% do patrimônio ao final de 2016 –, com isso a gestão conservadora foi privilegiada em detrimento, mesmo que temporariamente, do princípio da diversificação. Com a guinada do mercado no ano, foi possível identificar que o segmento estava orientado por decisões tomadas para reduzir os efeitos do risco de mercado, o objetivo era descartar os negativos, mas acabou incluindo também os positivos.

Se o fechamento da curva de juros em 2016 produziu ganhos expressivos nos títulos de renda fixa de longo prazo, boa parte dos fundos de pensão brasileiros não os capturou plenamente por motivos associados ao tipo de plano, os mais representativos são os de benefício definido e os de contribuição definida, respectivamente, com e sem risco de déficit atuarial.

Nos planos de benefício definido, os ganhos não foram completamente revelados porque a maioria dos títulos públicos estava contabilizada pelo critério de precificação pela curva, que neutraliza as oscilações de mercado, e foi adotado extensivamente a partir dos estudos de solvência denominados de ALM (política de gerenciamento de ativos e passivos).

Mesmo que isso não implique em qualquer desconformidade e tendo superado a taxa de juro atuarial, o fato é que a renda fixa dos planos de benefício definido não refletiu integralmente a valorização de 2016 dos títulos longos. Para que isso ocorresse, seria preciso que os gestores tomassem a decisão de alterar o critério de curva para mercado, com isso liberando o rendimento represado dos títulos, mas teriam que enfrentar em 2017, e nos anos posteriores, as oscilações recorrentes de mercado, objetivo que procuraram neutralizar no passado recente.

Nos planos de contribuição definida, a utilização da precificação pela curva é menos comum, os ganhos provenientes do fechamento da curva de juros em 2016 não foram maximizados em razão do encurtamento do prazo dos títulos de renda fixa. Sabemos que os títulos mais longos possuem risco de mercado mais elevado, porém compensam com retorno superior. Ao darem ênfase às estratégias com curta duração, vencimentos não muito além de 2020, os planos de contribuição definida tenderam a apresentar um descasamento de prazo em relação ao passivo e a rentabilizar as carteiras de renda fixa abaixo do potencial em 2016.

Em nossa opinião, o mais provável é que a terrível conjuntura política e econômica que o país atravessa seja o mais relevante dos fatores que levaram à adoção de políticas de investimento conservadoras, cujos resultados são relativizados neste artigo, levando a políticas menos arriscadas, transferindo o foco do longo para o curto prazo.

Talvez a mais importante lição que podemos tirar de 2016 seja a importância do método e da disciplina no processo de investimentos. O método se revela importante porque um plano de previdência complementar possui características que exigem uma gestão apropriada na qual o risco de mercado é o componente indispensável para o alcance de taxas de retorno mais elevadas. A disciplina é o seu complemento, é manter o método acima das circunstâncias, é ser incansável mesmo nos momentos mais adversos como os que a conjuntura brasileira nos tem oferecido. Esta é a mensagem, sorte é estarmos prontos quando a oportunidade vem.

Jair Ribeiro é autor do livro “Risco de Mercado dos Investimentos de Fundos de Pensão” e ocupa o cargo de Especialista na Fundação Eletrobrás de Seguridade Social – ELETROS.

 

Fonte: Valor – Sexta-feira, 13 de janeiro de 2017.